Todos os batizados são chamados a anunciar o Evangelho com coragem em
toda realidade. É o que escreve o Papa Francisco em sua Mensagem para o Dias
Mundial das Missões, que será celebrado em 20 de outubro próximo.
No documento publicado, nesta terça-feira, 06 de agosto, e que traz a data de 19 de maio passado, Solenidade de Pentecostes, o Pontífice ressalta que “evangelizar jamais é um ato isolado”, mas “sempre eclesial” e reitera que uma comunidade é realmente adulta se consegue sair de seu recinto para levar a esperança de Jesus também às periferias.
No documento publicado, nesta terça-feira, 06 de agosto, e que traz a data de 19 de maio passado, Solenidade de Pentecostes, o Pontífice ressalta que “evangelizar jamais é um ato isolado”, mas “sempre eclesial” e reitera que uma comunidade é realmente adulta se consegue sair de seu recinto para levar a esperança de Jesus também às periferias.
“A fé é dom precioso de Deus”, “um dom que não se pode guardar para si,
mas deve ser partilhado”. O Papa Francisco parte dessa consideração para
desenvolver a sua primeira Mensagem para o Dia Mundial das Missões.
LEIA MAIS:
Mensagem do Papa para Dia Mundial das Missões 2013
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Tradução: Jéssica Marçal
Queridos irmãos e irmãs,
Este ano celebramos o Dia Mundial das Missões enquanto se está concluindo o
Ano da Fé, ocasião importante para reforçar a nossa amizade com o Senhor e o
nosso caminho como Igreja que anuncia com coragem o Evangelho. Nesta
perspectiva, gostaria de propor algumas reflexões.
1. A fé é um dom precioso de Deus, o qual abre a nossa mente para que
possamos conhecê-Lo e amá-Lo. Ele quer entrar em relação conosco para fazer-nos
participar da sua própria vida e tornar a nossa vida mais cheia de significado,
melhor, mais bela. Deus nos ama! A fé, porém, pede para ser acolhida, pede, isso
é, a nossa resposta pessoal, a coragem de confiar-nos a Deus, de viver o seu
amor, gratos pela sua infinita misericórdia. É um dom, então, que não é
reservado a poucos, mas que vem oferecido com generosidade.
Todos deveriam poder experimentar a alegria de sentir-se amado por Deus, a
alegria da salvação! E é um dom que não se pode ter só para si mesmo, mas que
deve ser compartilhado. Se nós queremos tê-lo somente para nós mesmos, nos
tornaremos cristãos isolados, estéreis e doentes. O anúncio do Evangelho faz
parte do ser discípulos de Cristo e é um empenho constante que anima toda a vida
da Igreja. “O zelo missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade
eclesial” (Bento XVI, Exort. Apost. Verbum Domini, 95).
Toda comunidade é “adulta” quando professa a fé, celebra-a com alegria na
liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do
próprio recinto para levá-la também às “periferias”, sobretudo a quem não teve
ainda a oportunidade de conhecer Cristo. A solidez da nossa fé, em nível pessoal
e comunitário, é medida também pela capacidade de comunicá-la aos outros, de
difundi-la, de vivê-la na caridade, de testemunhá-la a quantos nos encontram e
partilham conosco o caminho da vida.
2. O Ano da Fé, a cinquenta anos do início do Concílio Vaticano II, é de
estímulo para que toda a Igreja tenha uma renovada consciência da sua presença
no mundo contemporâneo, da sua missão entre os povos e as nações. A
missionariedade não é somente uma questão de territórios geográficos, mas de
povos, de culturas e de indivíduos, propriamente porque os “confins” da fé não
atravessam somente lugares e tradições humanas, mas o coração de cada homem e de
cada mulher.
O Concílio Vaticano II destacou de modo especial como a tarefa missionária, a
tarefa de alargar os confins da fé, seja própria de cada batizado e de todas as
comunidades cristãs: “Porque o povo de Deus vive nas comunidades, especialmente
naquelas diocesanas e paroquiais, e nessas de todo modo aparece de forma
visível, cabe também a estas comunidades dar testemunho de Cristo diante das
nações” (Decr. Ad gentes, 37).
Toda comunidade é então interpelada e convidada a fazer próprio o mandato
confiado por Jesus aos Apóstolos de ser suas “testemunhas em Jerusalém, em toda
a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (At 1, 8), não como um aspecto
secundário da vida cristã, mas como um aspecto essencial: todos somos enviados
nas estradas do mundo para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a
nossa fé em Cristo e fazendo-nos anunciadores do seu Evangelho.
Convido os Bispos, os Presbíteros, os Conselhos presbiteriais e pastorais,
toda pessoa e grupos responsáveis na Igreja a dar ênfase à dimensão missionária
nos programas pastorais e formativos, sentindo que o próprio compromisso
apostólico não é completo se não contém o propósito de “dar testemunho de Cristo
diante das nações”, diante de todos os povos. A missionariedade não é somente
uma dimensão programática na vida cristã, mas também uma dimensão paradigmática
que abrange todos os aspectos da vida cristã.
3. Muitas vezes a obra de evangelização encontra obstáculos não somente em
seu lado externo, mas dentro da própria comunidade eclesial. Às vezes são
frágeis o fervor, a alegria, a coragem, a esperança no anunciar a todos a
Mensagem de Cristo e no ajudar os homens de nosso tempo a encontrá-Lo. Às vezes
se pensa ainda que levar a verdade do Evangelho seja fazer violência à
liberdade.
Paulo VI tem palavras iluminadoras quanto a isso: “Seria…um erro impor
qualquer coisa à consciência dos nossos irmãos. Mas propor a esta consciência a
verdade evangélica e a salvação de Jesus Cristo com plena clareza e no respeito
absoluto das livres opiniões que essa fará…é uma homenagem a esta liberdade”
(Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 80). Devemos ter sempre a coragem e a
alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo, de fazer-nos portadores
do seu Evangelho.
Jesus veio em meio a nós para indicar o caminho de salvação, e confiou também
a nós a missão de fazê-lo conhecer a todos, até os confins da terra. Muitas
vezes vemos que são a violência, a mentira, o erro a serem colocados em destaque
e propostos. É urgente fazer resplandecer no nosso tempo a vida boa do Evangelho
com o anúncio e o testemunho, e isto a partir do interior da própria Igreja.
Porque, nesta perspectiva, é importante não esquecer nunca um princípio
fundamental para todo evangelizador: não se pode anunciar Cristo sem a Igreja.
Evangelizar não é nunca um ato isolado, privado, mas sempre eclesial.
Paulo VI escrevia que “quando o mais desconhecido pregador, missionário,
catequista ou pastor anuncia o Evangelho, reúne a comunidade, transmite a fé,
administra um Sacramento, mesmo se está sozinho, cumpre um ato de Igreja”. Ele
não age “por uma missão atribuída a si mesmo, nem em força de uma inspiração
pessoal, mas em união com a missão da Igreja e em nome dessa” (ibidem). E isto
dá força à missão e faz cada missionário e evangelizador sentir que não está
nunca sozinho, mas faz parte de um único Corpo animado pelo Espírito Santo.
4. Na nossa época, a mobilidade difusa e a facilidade de comunicação através
das novas mídias têm fundido entre eles os povos, os conhecimentos, as
experiências. Por motivo de trabalho, famílias inteiras se deslocam de um
continente a outro; as trocas profissionais e culturais, então, o turismo e
fenômenos análogos empurram a um amplo movimento de pessoas.
Às vezes se torna difícil mesmo para as comunidades paroquiais conhecer de
modo seguro e aprofundado quem está de passagem ou quem vive estavelmente no
território. Além disso, em áreas sempre mais amplas das regiões tradicionalmente
cristãs cresce o número daqueles que são estranhos à fé, indiferentes à dimensão
religiosa ou animados por outras crenças.
Não raramente, então, alguns batizados fazem escolhas de vida que lhes
conduzem para longe da fé, tornado-se assim necessitados de uma “nova
evangelização”. A tudo isto se soma o fato de que ainda uma ampla parte da
humanidade não foi alcançada pela boa notícia de Jesus Cristo. Vivemos, então,
em um momento de crise que toca vários setores da existência, não somente aquele
da economia, das finanças, da segurança alimentar, do ambiente, mas também
aquele do sentido profundo da vida e dos valores fundamentais que a animam.
Também a convivência humana é marcada por tensões e conflitos que provocam
insegurança e cansaço de encontrar o caminho para uma paz estável.
Nesta complexa situação, onde o horizonte do presente e do futuro parecem
caminhos de nuvens ameaçadoras, torna-se ainda mais urgente levar com coragem em
toda realidade o Evangelho de Cristo, que é anúncio de esperança, de
reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia,
da sua salvação, anúncio de que o poder de amor de Deus é capaz de vencer as
trevas do mal e guiar no caminho do bem.
O homem do nosso tempo tem necessidade de uma luz segura que ilumina a sua
estrada e que somente o encontro com Cristo pode dar. Levemos a este mundo, com
o nosso testemunho, com amor, a esperança doada pela fé! A missionariedade da
Igreja não é proselitismo, mas sim testemunho de vida que ilumina o caminho, que
leva esperança e amor.
A Igreja – repito mais uma vez – não é uma organização assistencial, uma
empresa, uma ONG, mas é uma comunidade de pessoas, animadas pela ação do
Espírito Santo, que têm vivido e vivem a maravilha do encontro com Jesus Cristo
e desejam partilhar esta experiência de profunda alegria, partilhar esta
Mensagem de salvação que o Senhor nos trouxe. É propriamente o Espírito Santo
que guia a Igreja neste caminho.
5. Gostaria de encorajar todos a fazerem-se portadores da boa notícia de
Cristo e sou grato de modo particular aos missionários e as missionárias, aos
presbíteros fidei donum, aos religiosos e às religiosas, aos fiéis leigos –
sempre mais numerosos – que acolhendo o chamado do Senhor, deixam a própria
pátria para servir o Evangelho em terras e culturas diferentes.
Mas gostaria ainda de destacar como as próprias jovens Igrejas estão se
empenhando generosamente no envio de missionários às Igrejas que se encontram em
dificuldade – não raramente Igrejas de antigo cristianismo – levando assim o
frescor e o entusiasmo com o qual vivem a fé que renova a vida e doa
esperança.
Viver este respiro universal, respondendo ao mandato de Jesus “ide, portanto,
e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28, 19) é uma riqueza para toda Igreja
particular, para toda comunidade, e doar missionários e missionárias não é nunca
uma perda, mas um ganho. Faço apelo a quantos percebem tal chamado a
corresponder generosamente à voz do Espírito, segundo o próprio estado de vida,
e a não ter medo de ser generoso com o Senhor.
Convido também os Bispos, as famílias religiosas, as comunidades e todas as
agregações cristãs a apoiar, com clarividência e atento discernimento, o chamado
missionário ad gentes e de leigos para reforçar a comunidade cristã. E esta
deveria ser uma atenção presente também entre as Igrejas que fazem parte de uma
mesma Conferência Episcopal ou de uma Região: é importante que as Igrejas mais
ricas de vocações ajudem com generosidade aquelas que sofrem pela sua
escassez.
Junto a isso exorto os missionários e as missionárias, especialmente os
presbíteros fidei donum, e os leigos a viver com alegria o seu precioso serviço
nas Igrejas às quais são enviados, e a levar a sua alegria e a sua experiência
às Igrejas da qual partiram, recordando como Paulo e Barnabé ao término da sua
primeira viagem missionária “referindo tudo aquilo que Deus tinha feito com eles
e como tinha aberto aos gentios a porta da fé” (At 14, 27).
Esses podem transformar um caminho para uma espécie de “restituição” da fé,
levando o frescor das jovens Igrejas, a fim de que as Igrejas de antigo
cristianismo reencontrem o entusiasmo e a alegria de partilhar a fé em uma troca
que é enriquecimento recíproco no caminho de seguir o Senhor.
A solicitude para com todas as Igrejas, que o Bispo de Roma partilha com os
irmãos Bispos, encontra uma importante atuação no compromisso das Pontifícias
Obras Missionárias, que têm o foco de animar e aprofundar a consciência
missionária de cada batizado e de cada comunidade, seja chamando a atenção para
a necessidade de uma mais profunda formação missionária de todo Povo de Deus,
seja alimentando a sensibilidade das Comunidades cristãs a oferecer a sua ajuda
em favor da difusão do Evangelho no mundo.
Um pensamento enfim dirijo aos cristãos que, em várias partes do mundo,
encontram-se em dificuldade no professar abertamente a própria fé e no ver
reconhecido o direito de vivê-la dignamente. São nossos irmãos e irmãs,
testemunhas corajosas – ainda mais numerosos que os mártires nos primeiros
séculos – que suportam com perseverança apostólica as várias formas atuais de
perseguição. Não poucos arriscam mesmo a vida para permanecer fiéis ao Evangelho
de Cristo. Desejo assegurar que sou próximo com a oração às pessoas, às famílias
e às comunidades que sofrem violência e intolerância e repito as palavras
consoladoras de Jesus: ‘Coragem, eu venci o mundo’ (Jo 16, 33).
Bento XVI exortava: “A Palavra do Senhor se propague e seja glorificada” (2Ts
3, 1): possa este Ano da Fé tornar sempre mais equilibrado o relacionamento com
Cristo Senhor, porque somente Nele está a certeza para olhar para o futuro e a
garantia de um amor autêntico e duradouro” (Cart. Apos. Porta fidei, 15). É o
meu desejo para o Dia Mundial das Missões deste ano.
Abençôo de coração os missionários e as missionárias e todos aqueles que
acompanham e apoiam este compromisso fundamental da Igreja a fim de que o
anúncio do Evangelho possa ecoar em todos os cantos da terra, e nós, ministros
do Evangelho e missionários, experimentemos “a doce e confortante alegria de
evangelizar” (Paulo VI, Exort. Apost. Evangelii nuntiandi, 80).
Do Vaticano, 19 de maio de 2013, Solenidade de Pentecostes
Francisco
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