Jornal O SÃO PAULO
“Aí vai o trabalho mais vil do homem. Chegamos ao
ponto de coisificar as pessoas para ganhar dinheiro. É isso, o dinheiro é senhor
de nossas causas hoje”, afirma a promotora de justiça Eliana Vendramini.
Responsável pelo Programa de Identificação e Localização de Desaparecidos, a
promotora afirma que, no centro de São Paulo “vivemos um problema terrível”.
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“Não está longe de nós, o centro da cidade é um
dos principais lugares para falsificação de RG, obtenção de silicone industrial
para colocar em travestis que ‘quer se fazer’ em São Paulo. Não quero polemizar
a adoção brasileira que muitas delas são feitas por amor, mas existe muito
tráfico de bebês, o que é batizado de ‘adoção à brasileira’. Por exemplo,
encontrei a criança a mãe me deu, gosta muito de mim e peço a guarda e depois a
adoção, mas na verdade a mãe nunca me viu. Eu posso ser a mãe boa, mas posso ser
uma traficante, conseguir a guarda e depois vender”, comenta.
Talvez, ao falar em tráfico humano, as pessoas se
remetam a algo distante de suas vidas, ao interior, às fazendas, ou, até mesmo,
àquele cenário de novela, mas a realidade é diferente e está muito mais próxima
das pessoas do que elas pensam.
“O maior número de caso [em São Paulo] de
trabalho escravo é ligado às confecções, à indústria têxtil com a exploração de
bolivianos de maneira geral, mas no ano passado houve um aumento muito grande na
construção civil, como tem grandes obras, grandes empreendimentos, em vista da
Copa do Mundo e das Olimpíadas. Essa mão de obra é aliciada de alguns estados do
Nordeste, principalmente”, conta a doutora Christiane Vieira Nogueira,
procuradora do Ministério Público do Trabalho.
As modalidades de tráfico humano, quatro ao
total, atingem as pessoas em situação de vulnerabilidade. E essa
“vulnerabilidade”, ressalta a doutora Eliana, “se apresenta das diversas
maneiras possíveis. Uma vítima traficada é vulnerável, ‘vulnerável
economicamente’, alguém pode dizer. Não! Ela é vulnerável em qualquer ponto. O
travesti sai de lá só porque era pobre? Não. É porque não era aceito
socialmente. Vai aí outra questão de fraternidade”, comenta a promotora fazendo
menção à CF-2014.
Trabalho escravo ou situações análogas à
escravidão
Paulo Rodrigo dos Santos, um lavrador de 40 anos,
nunca estudou. Sabe ler e escrever, pois, como ele mesmo diz, “se virou na
vida”. Em conversa com a pesquisadora Claudilene da Costa Ramalho, mestra em
Ciências Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo, conta ele como
um “gato” o “aliciou” para o trabalho do corte de cana em uma usina de Mato
Grosso.
A promessa era receber R$ 100 por dia, mas o
máximo que ele conseguiu receber foi aproximadamente R$ 60, “no melhor dia”,
acrescenta, pois no pior dia o valor não passou de R$ 18. Fora os gastos com
alimentação e moradia, a promessa de um salário justo, como forma de pagamento
dos trabalhos prestados, ficou apenas na promessa.
Em casos assim, destaca a promotora Eliana, “a
maioria das vítimas de tráfico sabe o que elas vão fazer, o problema são as
condições que são descobertas mais tarde”. Ao passo que há um silêncio por parte
das vítimas, “essas vítimas, não querem falar em juízo. Elas não são a prova
oral do crime. Se falar, vitimiza, se falar, pode morrer, se falar, pode perder
oportunidade, é indigna a situação dela, mas é melhor do que de onde ela
saiu.”
A doutora Christiane acrescenta: “Há muito
silêncio. Nem temos ideia do percentual real do trabalho escravo que tem por aí
a fora. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) tem alguns estudos que é um
percentual relativamente pequeno dessas denúncias”. A procuradora do Ministério
Público do Trabalho ressalta que, atualmente, os casos do trabalho escravo vêm
aumentando e tudo isso como reflexo dos grandes eventos que acontecerão no
Brasil inteiro, “estádios, aeroportos, hidrelétricas, obras do PAC, Minha Casa,
Minha Vida…”, enumera.
Por EdcarReproduçãolos Bispo de Santana
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